sábado, 12 de janeiro de 2008

AFINAL, QUEM ERA JUDAS ISCARIOTES?

O texto bíblico descreve Judas Iscariotes como uma pessoa egoísta, avaro no sentido original do termo, isto é excessivamente preocupado consigo mesmo. O contrário de generoso, no sentido original do termo, isto é preocupado com coisas mais amplas do que a sua própria pessoa. Da mesma forma são descritos muitos dos fariseus e escribas, e igualmente os saduceus, o partido do alto clero, ao qual pertenciam os mais altos sacerdotes (não os sacerdotes comuns). Mesmo fora da Bíblia, vemos parte dos zelotes (aqueles que dominaram Jerusalém antes da sua queda) sendo descritos pelo historiador judeu Flávio Josefo, como pessoas de má índole, que desprezavam o respeito ao próximo e à Lei do Senhor, egoístas e violentos.

Muitos autores atuais, ao serem confrontados com estas descrições, tem dificuldade em aceita-las. O ponto que une, pelo menos supostamente, estas personagens é seu patriotismo, seu suposto ideal de liberdade do povo, oprimido sob os romanos. Libertários, afirmadores da identidade do povo, revolucionários que desprezam sua própria segurança em razão da identidade nacional e da luta contra a opressão, dizem estes autores. Qualquer descrição que contrarie esta avaliação deve ser um erro ou, talvez, uma fraude. E lá vão os que estão longe e menos informados sobre o contexto, dizerem que vêem melhor do que os que estavam perto.

Falarei primeiro de Judas Iscariotes. Não há informações objetivas, de fontes confiáveis, que confirmem o seu caráter de “revolucionário que visava a libertação do povo de Israel”. Muitos dos que querem fazer crer assim, atribuem também a Yeshua (Jesus), pelo menos no inicio, este objetivo político. Novamente não há nada nas fontes mais antigas que prove isto. Estas afirmações são feitas simplesmente por que os leitores atuais querem formar um quadro da época que se encaixe nos seus esquemas de pensamento. Uma única palavra, para estes, que possa ser usada de forma a significar um Jesus revolucionário, pesa mais que um livro de informações em contrário. Para estes leitores, é mais fácil descrer do testemunho dos antigos do que de seus próprios esquemas mentais. Céticos dos outros, jamais de si mesmos.

Mas vamos supor, apesar de não provado, que o suposto caráter revolucionário de Judas seja verdade. Muitos leitores, ainda na busca de organicidade do próprio pensamento, deduzem daí que a um elemento de generosidade em Judas que não pode combinar de forma alguma com a mesquinharia de receber uma bagatela como preço de uma traição absurda. Da mesma forma, só podem ver uma generosidade fundamental nos religiosos judeus que condenaram o Ungido, pois que tipo de gente se não um generoso lutaria contra a opressão da cultura alienígena? Igualmente todos os zelotes, movidos por ideais os mais altos, liberdade e justiça, seriam a encarnação da generosidade. Todos os citados, ainda que possam ter sido enganados pela aparência, e agido inconscientemente de forma injusta, não podem ter negado o seu direito de serem reconhecidos como pessoas fundamentalmente generosas.

Será?

Examinemos a hipótese de que todo aquele que luta contra um poder maior, ou pensa que luta contra um poder maior (ou assim quer fazem crer), é um generoso. Isto é sempre verdade? Egoísmo, soberba, orgulho, inveja, o ódio por um amor perdido, a lembrança reprimida de um abuso sofrido quando criança, o desejo de aparecer bem perante uma mulher, perante os seus pares, a fuga de uma consciência culpada, a paranóia, a psicopatia, nada disso pode ser o motor da luta? Apenas subsidiariamente, ou talvez como motor principal em poucos casos, dirão alguns.

Será?

Que nos diz a história da luta pela “libertação”? Mais de uma centena de milhões de mortos pela luta por um mundo melhor, só no último século? Quanta injustiça em nome da justiça? Quanta escravidão em nome da liberdade? Quase toda a luta “libertária” acabou sendo um erro. Engano bem intencionado?

Ou fraude?

Tanto mal pode nascer da boa fé? Ou será que a maldade já estava na semente, oculta sob uma capa de boas intenções? A criação de uma burocracia poderosa e controladora, a destruição da liberdade, campos de concentração, tribunais fajutos, genocídios, tudo isto já foi feito em larga escala por quase todos os “libertadores” modernos.

Qual a personalidade de praticamente todos os líderes revolucionários, ativistas, apoiadores? Freqüentemente começam na adolescência. Mas falemos aqui do que entendemos como adolescência. Viajando por lugares do interior, os adolescentes que vejo são pessoas fundamentalmente doces, espantadas ainda com realidades novas que estão conhecendo, alegres, mas às vezes um tanto introspectivos. A maioria dos adolescentes que vejo, principalmente fora do fluxo principal da cultura da mídia, não se encaixam de modo algum no estereótipo do “típico” adolescente pregado pela mídia, aquele que dizem ser o adolescente “normal”, uma pessoa extremamente soberba e arrogante, suposto possuidor de conhecimentos que outros não podem alcançar, membro de uma raça de refundadores da humanidade. Este, um doente, uma criança mimada, é dito o adolescente “certo”, o “verdadeiro”, até mesmo o “compatível com o estado normal do desenvolvimento biológico do ser humano”, mesmo se não for maioria, mesmo se algumas de suas características consideradas mais “típicas” forem fortemente culturais, pouco marcantes em outras épocas ou outras culturas. Pois bem, este estado de soberba personificada, elevada à suposta essência do que é a adolescência, é realmente a própria essência da “personalidade revolucionária” típica (não falo de lideres nativistas de séculos passados, cujo principal interesse era, normalmente, a construção realista de uma nação, não a “implantação de uma utopia”, contradição em termos). Se há uma essência de soberba na mente de tantos “libertadores” (leia suas biografias), não será esta a raiz daquilo que muitos crêem ser uma degenerescência posterior dos “movimentos libertários”, mas que na verdade se manifesta desde o início? Uma raiz de auto-gratificação doentia, de avareza, portanto, naquilo que é anunciado como generosidade. Como a “generosidade” de Ananias e Safira, aparência, hipocrisia (e eles realmente haviam decidido dar do seu patrimônio, da sua luta, sem que nada os obrigasse a isto).

Olhe a sua volta. O leitor não vê isto? Quão freqüentemente você vê pessoas que foram celebradas em verso e prosa como inimigos da ditadura, da corrupção, da vaidade, do engodo contra o povo, se mostrarem os maiores amigos da ditadura, corrupção, vaidade e engodo?

Voltemos aos grupos citados inicialmente, nos quais talvez o leitor não consiga enxergar a avareza e mesquinhez, citados pela Bíblia e por Flávio Josefo. Luta contra um poder externo, defesa da identidade de uma minoria, não são provas de generosidade. Talvez muitos queiram absolver Judas porque, imaginando ver nele um “crítico do sistema”, desejam absolverem a si mesmos. Basta ser um “crítico do sistema” e você terá a sua própria “generosidade” comprovada, não importa se você na prática age com egoísmo em relação ao seu próximo. Mas, que importa? Talvez até mesmo você seja usado como massa de manobra de movimentos que você realmente não entende, cujos objetivos explícitos parecem tão nobres e, portanto, você é um iluminado, um ser superior. Até que o Ungido se manifeste novamente e revele o que há no seu coração. Espero que isto aconteça agora, para o seu arrependimento, e não na Eternidade, para sua vergonha eterna.


Haverá, segundo diz a Bíblia, um dia em que o avarento não poderá mais ser chamado de generoso. Temo que a maioria dos “generosos”, “libertários”, “defensores da justiça”, de hoje em dia, não poderiam sobreviver a tal situação.

7 comentários:

SF disse...

Renato
Eu acho que seria elucidativo para o leitor saber com quem voce esta dialogando, ou quem e o recipiente dos seus contra-argumentos (um livro? Artigo? Programa de TV?)

Renato Ulisses de Souza disse...

SF

É uma resposta genérica a muita coisa que li e ouvi. Varios filmes sobre Jesus colocam Judas como um revolucionário, decepcionado com o pacifismo de seu mestre.

João Batista disse...

Apreciador de seus comentários no Blogildo, dou-lhe as boas vindas à blogosfera. Não que eu tenha autoridade para falar em nome da coitada. Boa sorte, e espero que os petralhas que me perseguem também passem por aqui, afinal, quem não gosta de um bom palhaço?

Renato Ulisses de Souza disse...

Grande João!!!

Seja muito bem vindo. Grato pelas suas palavras de apoi. espero que um dia eu escreva realmente bem.

Me critique à vontade. Repeito muito sua opinião.

Blogildo disse...

Excelente introdução de blog, Renato! Acho Judas o primeiro socialista do O cidente. Lembra daquela passagem do evangelho de João em que ele diz para se vender o nardo e doar aos pobres? É o único apóstolo que manifesta esse tipo de preocupação. No fundo só queria roubar.

Já leu "Os intelectuais" do Paul Johnson? É exatamente isso que vc escreveu!

Renato Ulisses de Souza disse...

Onildo

Boa sacada essa, do episódio da mulher que ungiu Jesus. Não tinha me tocado quanto a isso. É uma típica atitude de socialista, fazer um discurso bonito, defendendo os pobres, mas já pensando em passar a mão na grana.

Faço, uma proposta:
Uma blogagem coletiva, cada um escrevendo um texto chamado "Judas Iscariotes, o socialista". Todos citarão essa passagem dos evangelhos, para comparar com a atitude de líderes socialistas, que vivem uma vida nababesca, enquanto o povo, que dizem defender, passa miséria.

Seria interessante que todos publicassem no mesmo dia.

Anônimo disse...

que foi o verdadeiro traidor ou assasino de CRISTO?JUDAS?somente um homem........com tadas as fraqueza de um humano.CAIFAS sumo sacerdote ele que comprou á traição de CRISTO.